A Alma do Negócio



Se tem uma coisa que guardo na memória é como era vendida Coca-Cola alguns anos atrás. Lembro-me de quando criança, e até bem pouco tempo, de levar aquela garrafa de vidro vazia até a vendinha do Seu João e de lá voltar para casa com uma cheinha. Mas acredito que um dos maiores enigmas da história é por que a Coca-Cola em embalagem de vidro tinha sabor melhor do que aquela em embalagem pet. Não dá pra entender. É a mesma fórmula, mesmo líquido, mesma cor, mas o sabor do refrigerante é diferente quando em embalagem de vidro. 


Para evitar os grandes custos e a morosidade no convencimento do povo de que é tudo a mesma coisa, a empresa proprietária da marca lançou mão de uma jogada de marketing bastante interessante.
A Coca-Cola mudou o sabor do refrigerante em embalagens pet deixando-o igual ao do refrigerante em embalagem de vidro, e para tanto acrescentou ao rótulo do pet de dois litros a palavra “retornável”. Esse detalhe fez toda diferença para a empresa e para o consumidor. Agora o sabor do pet é igual ao da garrafa de vidro e a pessoa continua indo à venda do Seu João levando a pet vazia e trazendo uma cheinha para casa. Acrescentou-se uma palavra e ficou tudo certo. Tudo propaganda, tudo marketing.


Curioso é como esse mesmo mecanismo é usado na tentativa de mudar os meios pelos quais se torna conhecido o Evangelho de Cristo. Há uma deturpação muito grave e, como com a Coca-Cola, a maneira de oferta da fé também muda o sabor da mensagem, tornando-a mais agradável, mais aceitável. Contudo alterar o sabor do evangelho muda também por completo sua natureza essencial que é salvar almas. Digo isso por que a mensagem que é transmitida hoje se trata de um modo de melhorar a vida, não de salvar a alma. E as pessoas não se dão conta de que estão levando para casa uma coisa completamente diferente do original e ainda por cima em embalagem de plástico: resistente, mas que polui. Se no mundo mercantil o produto é vendido pelos benefícios que possa trazer e estes oferecidos através da propaganda, para o evangelho não há benefício que o venda uma vez que só pode ser oferecido de graça.


Definamos então o que é feito hoje em dia para (não sei o que dizer, por que não consigo chamar o que é feito hoje de propagação do evangelho) chamar pessoas a encherem os templos.

Comecemos por definir o que é marketing: “Marketing é o processo usado para determinar que produtos ou serviços poderão interessar aos consumidores, assim como a estratégia que se irá utilizar nas vendas, comunicações e no desenvolvimento do negócio. A finalidade do marketing é criar valor e satisfação no cliente, gerindo relacionamentos lucrativos para ambas as partes (http://pt.wikipedia.org/wiki/Marketing).” Marketing então, grosso modo, é uma maneira de oferecer um produto que interesse aos consumidores e fazer com que ele seja aceito. O lamentável é que essa mentalidade está impregnando a maneira de pregar o evangelho.  Com o intuito de lotar os templos e inchar a igreja é oferecido o milagre, a oração do poder, a bênção pedida. Não é oferecida a remissão de pecados através do arrependimento, nem a promessa de aflições, nem o juízo eterno caso a graça não lhes alcancem. O que é oferecido não é a salvação da alma, mas a melhoria da vida. E essa segunda não é necessariamente o que o evangelho produz. Bom exemplo disso é o mendigo Lázaro que recebeu em vida somente males (Lucas 16:25).



Como foi a difusão do Evangelho?

E percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. Mateus 4:23. Esse é um bom exemplo de como era feita a pregação do Evangelho, e é dado pelo portador original da boa nova.


E percorria, caminhava, andava ensinado nas sinagogas e pregando o evangelho do reino. Antes de tudo Cristo pregava, passava uma mensagem. Não se tratava de uma palestra motivacional que levava as pessoas aos prantos pensando em como elas são especiais e maravilhosas, mas ensinava e pregava o evangelho do reino. A mensagem era simples “veio Jesus para a Galileia pregando o evangelho de Deus e dizendo: O tempo está cumprido, e é chegado o reino de Deus. Arrependei-vos, e crede no evangelho.” (Marcos 1: 14b, 15). O primeiro passo é o ensinar, “logo, a fé vem pelo ouvir” (Romamos 10:17a).

Depois que é pregado o evangelho do reino vem a fé, depois é  que vem a cura. Mas como todo mundo gosta mais da parte que diz que todos os males serão desfeitos é ela que é oferecida por aí, criando pseudocristãos muito mais crentes no nome que na alma uma vez que querem o agir de Deus naquilo que lhes é mais conveniente. Não dá para inverter a ordem das coisas, por que assim não funciona.

Aí embaixo tem uma música de 1988, de um grupo que digo sem medo é um dos melhores que existem. A música diz "E não se negocia sua [do evangelho] essência e poder/ Se camuflado a excelência perderá!" que traduz bem o que quiz dizer nesse texto.







Comentários