"... e vestida a couraça da justiça;" Efésios 6:14b




Mais uma vez Paulo se lembra de Isaías, dessa vez cita o verso 17 do capitulo 59. Mas se no livro do profeta é pintado um estado de desolação em que impera a injustiça e “quem se desvia do mal é tratado como presa” (v.15) e o Senhor é quem “veste-se de justiça, como de uma couraça” (v17), o apóstolo convida aqueles que tiveram seus lombos cingidos com a verdade a também vestir-se da couraça da justiça.

O elemento: couraça

Paulo aqui usa a figura da couraça para aludir à justiça como fez Isaías. Essa parte da armadura é responsável por proteger o soldado de ataques diretos que, se não mortais, sem dúvida causariam grandes dados. Ao contrario do que se pensa a couraça não recobre somente a parte dorsal do soldado, mas como o próprio nome indica, é toda parte da armadura romana que é
feita de couro, então a couraça possui elementos que recobrem os braços, que protegem as pernas e ombros, o que a constitui basicamente um elemento de defesa, não de ataque.
A couraça em Efésios, contudo é constituída de outro material que não couro, mas sim de justiça.

Justiça e o justo

Segundo o dicionário Aurélio, um dos significados que justiça pode assumir é “a virtude de dar a cada um aquilo que é seu”.  Isso quer dizer que justiça é retribuir a alguém aquilo que por direito lhe pertence. E isso é feito por quem possui “faculdade de julgar segundo o direito e melhor consciência” (Dicionário Aurélio 2004).
Contudo Paulo conclui em Romanos 3:9-10 “pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.” E os que têm os lombos cingidos com a verdade conhecem o fato de a humanidade ter sido criada por Deus e ter escolhido andar segundo os “desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos;” sendo, portanto “por natureza filhos da ira, como os outros também.” (Efésios 2:3).  Não há, então direito a ser reivindicado diante de Deus “porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;” Romanos 3:23. Se fôssemos esperar justiça de Deus segundo nosso direito e por nossos próprios méritos, a Justiça Dele pediria que fôssemos condenados, uma vez que, por nós mesmos somos culpados. Culpados por produzirmos e disseminarmos o que é mal.
 Não havendo então justo, não há a quem se deva atribuir justiça. Numa batalha sem couraça não há o que o defenda de um ataque direto.
E agora?
Vale lembrar que a armadura não é nossa. Que, assim como a verdade, a justiça não pertence ao ser humano, mas, como dito por Isaías, pertence a Deus. Curioso isso. Se o profeta fala que quem “veste-se de justiça, como de uma couraça” (v17) é o Senhor, o apóstolo diz que nós podemos tomar posse dessa couraça também. Alentador!

A justificação

Justificação é “basicamente declarar que as exigências da lei, como condição de vida, estão plenamente satisfeitas em relação a uma pessoa” e isso quer dizer que as exigências que a lei fazia foram atendidas, não havendo o que mais deva ser feito para satisfaze-la. E como a justiça pertence a Deus nada mais justo que ele mesmo ter sido o responsável pela nossa justificação. A final “aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21).
Calvino dá uma ideia do que isso quer dizer: “excluído da justiça das obras, agarra-se à justiça de Cristo através da fé, e vestido com ela, aparece na vista de Deus não como um pecador, mas como um homem justo." A justificação, portanto, segundo Calvino, "acontece quando Deus declara o pecador justo; ele é aceito e perdoado por causa de Cristo somente".

Na armadura, qual é o papel da couraça da justiça?

Não nos esqueçamos de que em batalha a couraça tem papel de proteção. Mas proteção contra o quê? Apocalipse fala no capitulo 12, verso 10 de um acusador que nos “acusa diante do nosso Deus, dia e noite”. Este não só quer que sejamos todos condenados, mas que vivamos em culpa. De fato a culpa é o terreno onde o diabo ganha suas maiores batalhas.
Quando nesse sentimento, não discernimos a realidade com clareza e somos inclinados a desesperança e aqui o diabo faz com que no sintamos incapazes de seguir com Cristo, e esquecemos que “agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” Romanos 8:1.
Então se com uma couraça de couro temos proteção em uma batalha, vestido com a couraça da justiça de Cristo nós somos invulneráveis. O que não quer dizer que não seremos atacados, mas revestidos por essa couraça a justiça que nos foi imputada jamais será feriada diante Deus. Por que em Cristo as exigências feitas pela Justiça foram satisfeitas completamente, não sendo necessário que complementemos, acrescentemos ou adicionemos qualquer coisa, mas que simplesmente creiamos na verdade da qual cingimos os nossos lombos.
Vejo nisso um convite a se viver com intrepidez uma vez que já não há quem nos acuse, mas antes quem nos justifique. Vale ressaltar a segunda parte do verso 1 do capitulo 8 de Romanos. Não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, mas estes “não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito”.

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