Nous Somme Charlie


"Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear isso também colherá."
(Gálatas 6;07)




Ouvi muita coisa sobre esse ataque que acontecera ao jornal francês Charlie Hebdo. Muita gente estarrecida, muita gente chocada, muita gente impressionada. Concordo que o humor produzido pelo jornal era de fato sem limites e que não poucas pessoas devem ter se ofendido (e muito) com suas charges. É bom dizer que as piadas não eram unicamente sobre mulçumanos. Charlie não se limitava ao profeta Maomé na tentativa de ser engraçado. As publicações eram sobre judeus, cristãos, políticos, movimentos sociais, opinião pública.
A inclinação em fazer humor tão ferozmente tendo a religião como tema talvez se explique pelo fato da população francesa ser composta por quase um terço de ateus. Nada mais engraçado do que fazer piada com aquilo que os outros julgam sagrado. Aliás, acredito que a intenção do jornal era de verdade chocar e muitas vezes agredir com seus desenhos, mas nada disso justifica o ataque que que periódico sofreu, menos ainda o assassinato de 12 pessoas.

O assunto tomou conta das ruas por onde passei e todo mundo tinha uma teoria que explicava os motivos culminaram com os eventos da ultima quarta feira, mas uma em particular chamou minha atenção. Tive que ir ao banco hoje a tarde e não sei o que acontece em fila de banco que todo mundo acaba se vendo obrigado a opinar. Dessa vez não foi diferente. Dentre um monte de coisas ditas pelo grupo que conversava sobre a tragédia na França, uma frase me chamou atenção: "Deus não se deixa escarnecer". Uma referência ao trechos da carta aos Gálatas no capitulo 6, verso 7, dessa vez foi dita por um senhor que assumia uma postura como se estivesse batendo o martelo e decretando a sentença, sem contar o tom de vingança e revanche que assumiu. Claro que encaixou-se como uma luva e assentimentos dos ouvintes com a cabeça seguiram-se a essa frase, mas merece uma contestação.

Primeiramente o problema com a frase isolada. O contexto em que Paulo usa essa máxima é num contexto de auto-exame, não de julgamento. Tanto que no versículo 4 do mesmo capítulo é dito "Cada um examine os próprios atos, e então poderá orgulhar-se de si mesmo, sem se comparar com ninguém".  e logo depois "pois cada um deverá levar a própria carga." (Gálatas 6; v 4 e 5). Tendo em vista o caráter de auto-exame a frase "Deus não se deixa escarnecer" deve ser um aviso a ser assumido pelas pessoas para si mesmas, não voltando-a para terceiros. É como se Paulo dissesse "a quem vocês acham que enganam? Somos os sujos falando dos mal lavados.". Então não dá para dizer que o acontecido ao Charlie Hebdo são uma espécie de represária de Deus pelas brincadeiras de mal gosto.

Segundo, se fosse mesmo uma represária divina às piadas do jornal francês não acho que muçulmanos ou qualquer outro ser humano seriam seus instrumentos. Querem ver só? Quem mandou o dilúvio, as praga do Egito, o terremoto que fez a terra se abrir e tragar Coré pela rebelião contra Moisés ou quando Nadabe e Abiú trouxeram fogo estranho perante Deus e tantos outros exemplos? Deus não tem como costume usar homens para punir homens (o que não quer dizer que ele não o faça, só que não é seu procedimento costumeiro). Por qual motivo dessa vez seria diferente?

Para finalizar acho mesmo que é uma pena a religiosidade ser sempre (ou quase sempre) associada a esse tipo de episódio. Qual proveito essa ação divina (se Dele fosse) traria de proveitoso para a propagação do Reino, uma vez que o que o extremismo faz é prejudicar outras religiões em especial os cristãos? Talvez por sermos ovelhas dotadas de uma passividade incomparável e julgarmos que o silêncio é sempre a melhor resposta a ataques sejamos sempre os prejudicados finais. E confesso sentir um pouco de culpa (irracional) uma vez que me incluo no conjunto dos religiosos. Isso tudo é lamentável e a culpa não é de Deus.

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