Politicamente Incorreto

João 6: 14 Depois de ver o sinal milagroso que Jesus tinha realizado, o povo começou a dizer: "Sem dúvida este é o Profeta que devia vir ao mundo". 15 Sabendo Jesus que pretendiam proclamá-lo rei à força, retirou-se novamente sozinho para o monte.
O trecho acima relata o que aconteceu depois que Jesus alimentou 5000 homens usando apenas cinco pães e dois peixes. Sei que se trata de uma reflexão um pouco batida com relação ao papel do Cristo no mundo, que não pretendia se tornar um rei político e que essa lição deixada por ele deve estar bem fixa na mente dos daqueles que o seguem - se não está, deveria, mas tem mais algumas coisas que eu queria considerar, para efeito de reflexão, o nosso papel quanto ao mundo que nos rodeia. É necessário deixar claro que habitamos um lar que não é o nosso e que apesar de sermos integrantes dele, não devemos nos identificar com ele. Como disse Paulo “não vos conformeis com esse mundo,” (Romanos 12;2a)
Primeiro é necessário que nos
identifiquemos quanto ao plano em que nos encontramos para que saibamos qual é o nosso papel. E tendo isso em vista podemos definir os crentes em Cristo como aqueles que estão inseridos em dois planos: o civil-social que compreende nossa inserção numa sociedade com direitos e obrigações civis como o pagamento de impostos, a necessidade do trabalho, a utilização de transportes, o voto. Somos nesse ponto como todos os demais serem humanos que compõem a sociedade independente da cor, sexo, orientação sexual (não venha me dizer que isso não existe isso, vejo gays e lésbicas o tempo todo, como você chama é outra história) ou classe social. O próprio Jesus nos dá uma noção desse nosso papel quando naquela passagem clássica em que ele diz “dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus” Mateus 22; 21, deixando claro que temos obrigações a cumprir tanto com relação a Cesar (governantes e autoridade constituídas) quanto com relação a Deus.  O segundo plano, mas não menos importante é nossa condição enquanto crentes em Cristo Jesus, salvos, remidos, santificados, justificados, seguidores da Verdade, herdeiros de Deus da parte de Cristo. Nesse grupo nem todos os seres humanos estão inserido e são incontáveis as referências bíblicas quanto a essa nossa condição. Fazemos então parte do mundo com esses dois papeis a exercer. Um que diz respeito à condição de cidadão integrantes de uma sociedade e outro como integrante de um reino maior, de um mundo maior que não é no tempo presente em sua plenitude, mas que, na esperança que há em Cristo será eternamente, amém.
Esses dois papéis são interdependentes e em muitos aspectos e acabam interferindo um no outro. Exemplo disso é que, na maioria dos casos, temos que exercer alguma atividade remunerada para nos sustentarmos e a nossa família, ou estudamos e essas atividades sociais nos impede muitas vezes de frequentar reuniões públicas de adoração a Deus, são papeis complementares quanto ao ofício da adoração do crente (assunto para outro texto), mas ao mesmo tempo impedem determinadas atividades próprias do mundo cristão. O contrário também acontece, deixamos de realizar muitas atividades que são típicas da nossa geração ou de costumes sociais gerais devido a nossa fé. Quero dizer que existe uma linha tênue entre o nosso mundo religioso, ortodoxo, cristão e o nosso mundo social, civil, cultural. Tão tênue que muitas vezes se confundem, chegando até em alguns casos a se fundir. Daí a existência de tantas práticas que são comuns em ambos os mundos, como a assembléia geral de membros comum em tantas organizações religiosas e seculares, ou ainda a postura despótica de líderes, presente em tantas denominações e regimes políticos. Seja como for quero dizer que esses mundos se cruzam em determinados aspectos o que acaba gerando certa confusão nos verdadeiros papeis que devem ser adotados pelo crente.
Isso não significa que temos dois comportamentos ou que temos duas maneiras de viver ou ainda que nosso comportamento deva ser um no mundo e outro na igreja. Quero somente afirmar que estamos em dois mundos: um terreno, limitado e temporal e outro celestial, ilimitado e atemporal. Não é minha pretensão apontar duas posturas que devem ser adotadas dependendo do contexto que estamos inseridos. Quero somente demonstrar que temos costumes e regras a serem cumpridas em dois planos distintos e que algumas dessas regras e planos acabam por se confundir e até mesmo se fundir. Ratifico minha opinião de que todo e qualquer comportamento deve antes de tudo passar pelo crivo consciência cristã que se resume a estar em acordo com o que é proposto como boa conduta pela bíblia e confirmado pela orientação do Espírito Santo de Deus. Se a bíblia não condena e se a consciência guiada por Deus também não, então siga em frente. Quero dizer que não pode haver confusão quanto aos papéis que cada área deve exercer. Se social-civil-político, social-civil-político, se cristão, cristão.
Essa confusão quanto à postura que devemos ou não assumir chegou ao ponto de colocarmos de lado a fé cristã como determinante para alteração da sociedade e adotarmos o posicionamento político como modificador da natureza humana, atribuindo às figuras de representação política e posições políticas conservadoras a influência que o cristianismo deveria ser no meio social. Não são poucos os pastores, bispos, obreiros e afins que adotaram como meio de influenciar a sociedade secular a representação política e passaram a atribuir ao posicionamento político a capacidade de mudar a sociedade. Essas mesmas figuras públicas estão almejando aquilo que Jesus recusou e fugiu para não ser obrigado a assumir, esses querem ser reis.
Pior do que isso é atribuir à fé cristã o papel de modificador da sociedade. Não é esse o seu fim último, mas a conseqüência da conversão a Cristo de um número razoável de integrantes da sociedade. Quando Jesus chama aquele discípulo para segui-lo e ele pede para deixá-lo sepultar o seu parente, Jesus lhe responde “Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus mortos” (Mat.8; 22) que demonstra a despreocupação de Cristo com rituais sociais e que sua preocupação é com os que já receberam ou receberão o chamado. Esse versículo também é uma demonstração de qual deve ser a preocupação daquele que recebe o chamado de Jesus: Segui-lo.
Por fim, o nosso relacionamento com o mundo tem tomado um rumo que Paulo nos advertiu para que tomássemos cuidado “não vos conformeis com este mundo” (Rm 12; 2a) e estamos atribuindo aos mecanismos de organização desse mundo aquilo que somente é possível de ser experimentado através da aquisição da fé em Cristo, estamos esperando que ações sociais, projetos políticos e posturas conservadoras mudem as pessoas e às torne pessoas melhores e isso está longe das possibilidades de qualquer filosofia alcançar.

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