"Simão, filho de Jonas, amas-me?" - João 21; 15 a 17




Talvez essa seja uma das mais interessantes passagens da bíblia no que se refere à diferença entre o texto original em grego e a tradução para o português.

Mas antes queria deixar claro que meu objetivo não é contestar a veracidade de qualquer interpretação que possa ter sido feita tendo em vista somente o texto traduzido para o português. Esse trecho foi traduzido assim para que fosse entendido assim. Quero dizer, o que está escrito é para ser entendido como foi escrito, dentro de um contexto específico que cada um experimentou. Ou seja, Deus falou ao seu coração do modo como o pregador compreendeu o texto e ele foi aplicado tendo em vista essa interpretação. E isso não tem tradução que possa desmerecer.

Vamos lá. O grego é uma língua de três amores: filos, ágape e eros. No Novo Testamento dois são os mais usados: ágape e filos e é nesses dois que vamos nos concentrar.

Amor ágape.

Ágape era usado por escritores não bíblicos como amor entre membros de uma família, entre membros de um mesmo grupo que tinham certa afinidade comparável a familiar ou então uma afeição por uma atividade particular em grupo.

Na bíblia, contudo o significado é um pouco diferente. “No Sermão da Montanha Jesus diz: "Ouvistes dizer: 'amarás (ágape) teu irmão e odiarás teu inimigo', mas eu vos digo: amai (ágape) vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, e orai por aqueles que vos perseguem e maltratam, pois deste modo sereis filhos de vosso Pai nos céus, aquele que faz com que o sol se levante sobre o mau e sobre o bom, e faz chover sobre o justo e sobre o injusto. Se amardes apenas aqueles que vos amam, que recompensa terá?"

Os escritores Cristãos descreveram geralmente o ágape, como exposto por Jesus, como uma expressão do amor que é incondicional e voluntário, isto é, não discrimina, não tem nenhuma pré-condição, e é algo que se decide fazer voluntariamente. O Apóstolo Paulo descreve o amor como segue: “O amor (ágape) é paciente, o amor é amável. Sem inveja, ele não tem ostentação, ele não é orgulhoso. Não é rude, ele não é interessado, ele não se irrita facilmente, ele não mantém nenhum registro dos erros. O amor não se deleita com o mal, mas rejubila com a verdade. Protege sempre, confia sempre, sempre tem esperança, sempre persevera. O amor nunca falha.” (I Coríntios 13:4-8).

O ágape foi explanado por muitos escritores Cristãos em um contexto especificamente Cristão. Thomas Jay Oord definiu o ágape como "uma resposta intencional para promover o bem-estar em resposta a quem gerou um mal-estar." (Veja https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81gape)

 
O amor filos

Filos tem uma conotação diferente da do amor expressado por ágape. É amar de uma maneira mais simples, sem tanta profundidade, é ter um carinho e uma afeição, nutrir uma amizade muito forte e um sentimento de profundo companheirismo.  Quando está falando sobre o caráter ou a disposição que cai entre a adulação ou a bajulação. Aristóteles diz que ““ não se tem nenhum nome, mas pareceria ser a maioria das vezes como [philia]; para categorizá-lo a pessoa no estado intermediário é exatamente aquilo que nós queremos dizer a um amigo decente, a não ser por aquilo que o amigo também acha de nós". (1126b21). Em sua Retórica, Aristóteles define a atividade envolvida na philia (τὸ φιλεῖ n) como: "querendo para alguém o que se pensa de bom, e por sua causa e não pelas nossas próprias, e assim estar inclinado, tão tempo quanto puder, fazer tais coisas por ele" (1380b36– 1381a2)

E quanto a Pedro e a Jesus?

Primeiramente esse Pedro aí é não é o mesmo que tinha negado a Cristo três vezes, cumprindo aquilo que Cristo predisse depois o esse apostolo afirmou que “Ainda que todos se escandalizem em ti, eu nunca me escandalizarei.” (Mateus 26:33). “Disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, três vezes me negarás.” (Mateus 26:34)

Esse Pedro é um homem diferente. É um homem consciente dos seus reais sentimentos e de que era incapaz de entregar a vida por Cristo. Por isso a cada pergunta que Jesus faz a ele, perguntando “Simão Pedro, agapas-me?”, ele responde “sim se'nhor, tu sabes que filo-te”. Afirmar isso pela primeira vez deve ter sido muito doloroso, afirmar segunda vez mais ainda, o terceiro “Pedro, agapas-me” foi tão incomodo que entristecido responde: “Senhor tu sabes tudo, tu sabes que filo-te”

Então o mesmo Pedro que negara a Cristo três vezes por desconhecer qual era o tamanho da sua fidelidade ao Filho de Deus, agora entristecido olha para Cristo e reconhece sua incapacidade de amá-lo da mesma forma como ele é amado. Antes três vezes negara a Cristo, agora três vezes o afirma e o confirma e recebe dele a incumbência de apascentar suas ovelhas.


referencia grego/portuguesa: http://dubitando.no.sapo.pt/Jo_c.htm

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