Inveja, cobiça e como lidar com elas




Talvez um dos sentimentos humanos que mais traz dificuldade nos relacionamentos é a inveja. Aquele descontentamento e incômodo com a felicidade ou sucesso do próximo, o desejo de ter para si aquilo que o outro possui ou conquista ou ainda simplesmente desejar que o outro não tenha. Se você já sentiu isso, por favor, não negue para si mesmo. Somos humanos e às vezes incorremos num erro por que não identificamos dolo naquele sentimento. A final quando somos acometidos pela inveja o que mais justifica nutrir esse sentimento é classificar o alvo com sendo incapaz, incompetente ou não merecedor daquilo que conquistou, nublando nosso julgamento e nos tornando incapazes de reconhecer que o problema está em nós, não no outro. Sim, já senti inveja. 


Mas o que causa a inveja? Como explica o professor Felipe de Souza, mestre em psicologia clínica pela UFJF: 
“Ninguém é uma ilha e o ser humano é um ser gregário, vive em sociedade. Com isso, para a construção de sua identidade (a ideia que responde a pergunta quem eu sou?) cada um acaba incorporando traços das pessoas ao redor, inicialmente a família, depois os amigos da escola, colegas, amores, etc. 
Neste processo de construção de identidade, do quem eu sou, há uma dinâmica entre o eu e o outro. Às vezes parece muito difícil sair da comparação com o que o outro é, com o que o outro tem. Nessa comparação é que surge a inveja.  Nesse sentido, a inveja seria uma consequência da identificação com outro, pelo fato de que às vezes o desejo acaba sendo posterior à inveja. Por exemplo, a garota que deseja o rapaz (por muito tempo solteiro) e que acaba de começar um namoro com uma amiga, talvez descubra o desejo pelo rapaz apenas depois de que a amiga o conquistou. Seria uma inversão, então, não da inveja como um desejo de ter o que o outro tem, mas da inveja como trazendo à tona um desejo escondido. 
A razão pela qual sentimos inveja, portanto, vem do fato de que nos comparamos com as outras pessoas. Se pararmos de nos comparar com os outros, com o que os outros tem, são ou conseguiram, será impossível sentir inveja."
Seria esta a explicação da psicologia para a causa da inveja. Uma vez que nos comparamos ao outro, temos uma predisposição em esperar que tudo o que o outro recebe também nos seja dado ou que a pessoa alvo de inveja não tenha aquilo que lhe foi dado. Claro que essa só acontece quando consideramos o que o outro recebe como bom. Aquilo que julgamos mal não nos desperta inveja uma vez que geralmente causa algum dano ou são experiências desagradáveis e geralmente isso não nos interessa.

Mas o que diz a bíblia sobre a inveja?

Sendo a inveja em suma o desejo de possuir aquilo que pertence à outra pessoa, podemos nos basear na carta do Apóstolo Tiago nos versículos 14 e 15 do capítulo 1: "Cada um, porém, é tentado pela própria cobiça, sendo por esta arrastado e seduzido. Então a cobiça, tendo engravidado, dá à luz o pecado; e o pecado, após ter-se consumado, gera a morte." Tiago 1:14,15. 

Basicamente esse texto diz que todo pecado tem como origem a cobiça, o querer ou simplesmente a manifestação da vontade de possuir. Claro que não está falando de todo e qualquer desejo, mas o desejar de tal modo que este gera pecado. A expressão “sendo por esta [pela cobiça] arrastado e seduzido” trás a ideia de que o desejo se torna alguma coisa tão forte que leva aquele que o possui a objetivar somente a satisfação desse desejo, mesmo que por um instante. 

Como Tomás de Aquino escreveu: "A cobiça é um pecado contra Deus, assim como todos os pecados mortais, na medida em que o homem condena as coisas eternas para o bem das coisas temporais.” Por essa concepção o desejo de possuir assume uma natureza pecaminosa quando voltado para coisas terrenas, temporais  e às coloca acima daquilo é divino, imaterial e eterno e se manifesta na inveja atribuindo à vontade divina como equivocada. É como se disséssemos que Deus não sabe o que faz porque deu a outra pessoa que não a nós alguma dádiva. 

Pelo que foi apresentado acima penso que a inveja uma manifestação de um triplo julgamento (defesa, acusação e condenação/absolvição) feito na alma do indivíduo. Primeiramente com relação ao próximo que consideramos indignos de receber o que lhe foi dado. Segundo é um julgamento acerca de nós mesmos que nos consideramos mais dignos de receber o que o outro recebeu.  Em terceiro lugar é um julgamento de Deus que julgamos equivocado em conceder a dádiva à outra pessoa que não a nós. 

Para se livrar desse mal a primeira atitude a ser tomada é assumir que de fato, mesmo que eventualmente, somos tomados pela inveja.  Comportamento é o mesmo que alguns vícios e começar reconhecendo que nos portamos de determinada maneira é o primeiro passo para tomar consciência de que temos uma postura destrutiva e prejudicial para nós e para os outros. 

O segundo passo está em Tiago 1:16-18 “Não erreis, meus amados irmãos. Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas.” O segundo passo consiste em entender e aceitar que toda boa dádiva é Deus quem dá e está planejado e determinado desde a eternidade e que não vai terá seus planos frustrados. 

O terceiro encontrei em um hino clássico da minha denominação numa das estrofes do hino “Deus cuidará de ti” o compositor diz:

"O que é mister te pode dar, 
Quem cuidará de ti; 
Nos braços seus te sustentar,
Pois cuidará de ti."

O que é um alento e um aviso. Primeiro é um alento por que aquilo que vamos ganhar de Deus, vamos ganhar. O aviso é de que nada além do que está nos destinado receberemos.

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