O deus moderno

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ATENÇÃO! Este não é um texto cristão. A ideia de religião abordada nesse texto é abrangente e não trata de religião como sendo um relacionamento entre o Deus Trino da bíblia. É uma analise das possíveis consequências de um mundo não religioso, cuja ideia e influência religiosa cristã ou de qualquer outra.
Os deuses nascem a partir da necessidade de explicar, de compreender o incompreensível, nascem da necessidade de saber. Existiu uma época em que a religião era quem explicava a existência. Foi uma era em que o mundo precisava saber como tudo funcionava e somente a ação sobrenatural era capaz de dar essa resposta. Uma época em que o nascer do sol, o cair da chuva o movimento das estrelas, o florescer da vida não podiam ser explicados a não ser como sendo fruto da ação de uma (ou umas) divindade(s). Esse tempo está passando. Não o tempo em os deuses vão deixar de existir, esses sempre estarão presente na humanidade seja na forma que for, mas o tempo em que as pessoas começam a explicar a existência através de outros meios que não pela ação de um deus, ou pelo menos não um deus convencional.

O caráter humano e este entendido como o conjunto de traços psicológicos e/ou morais que caracterizam um indivíduo ou um grupo é em grande parte moldado a partir da relação que se mantém com o sagrado, a partir da relação com um deus. Tanto nos ritos para agradá-lo, quanto no comportamento que se mantém e nutre em sociedade. E isso é tão real que podemos observar em sociedades mais fechadas no sentido de agregar outras culturas cuja relação com o sagrado é mais dura, um comportamento mais duro, parcial e intolerante (vide muçulmanos jihadistas, seitas de origem cristã, etc.) Logo podemos entender de um modo geral que em grande parte somos aquilo que entendemos como a manifestação do caráter de um deus, do deus a que nós elegemos como nossa divindade.

Essa relação é quase sempre de troca. Mantém-se uma adoração, uma liturgia com o intuito de obter o favor da divindade que é alvo da intenção de agrado. O ser humano deseja alguma coisa que lhe é num primeiro momento impossível de adquirir, se chega a divindade esperando uma graça  e em troca oferece alguma coisa. Logo é possível entender a relação sagrado e homem como uma relação de freios e contra-pesos cuja função social seria de limitar a ação humana àquilo que é considerado permitido pela divindade objeto de adoração. O limite da ação humana é aquilo que os deuses permitem.

Apesar do discurso aparentemente aterrador de escravidão a que o ser humano se coloca diante do favor divino, é possível afirmar que a humanidade existe durante milênios e milênios graças a capacidade limitadora da consciência divina. Tanto que sociedades com maioria atéia tem dificuldades sociais bastante graves, mesmo apresentando um elevado índice de desenvolvimento. Vide a sociedade francesa cujo desenvolvimento social é notável, mas apresenta elevados índices de pessimismo, depressão e suicídios (fonte: understandfrance.org/French/Issues.html).

Então o que substituiria aqueles que detém tanto o conhecimento quanto a possibilidade de realizar as vontades e desejos humanos? Quem deteria o conhecimento e o poder?

Nos últimos seis séculos a humanidade tem experimentado uma grande expansão do conhecimento. Vislumbramos horizontes serem ampliados, fronteiras rompidas e mitos caírem. De fato a humanidade tem produzido, ampliado e difundido cada dia mais o conhecimento de modo que os limites são cada vez menos possíveis de serem avistados. Esse avanço vem acompanhado de um repúdio cada vez mais crescente de tudo aquilo que é religioso (especialmente a tudo aquilo que é cristão) de modo e o que antes era apresentado como a resposta para os anseios hoje é visto como uma visão menor de compreensão da existência. A religião tem sido posta de lado e toda a sociedade que ela construiu tem se desfeito e dado lugar a um mundo que a odeia.

Recebemos de Prometeu o fogo roubado dos deuses e esse conhecimento nos fascina e nos conforta. Não é mais uma divindade que é alvo das expectativas humanas, mas a fé na ciência. Se por um lado temos o fogo, por outro ainda não descobrimos o quanto ele pode ser destrutivo.

Tendo em vista a relação humana com o divino de troca e subordinação, estamos diante do próprio conhecimento. Esse deus entrega tudo e não pede nada a não ser que se exercite uma das mais latentes características humana, a curiosidade. O grande problema é que a noção de freios e limites que existia na relação convencional e pela primeira vez na história da humanidade ela não existe. Os resultados disso não podem ser medidos num curto espaço de tempo, mais uma era é necessária e ela se iniciou nesse novo século.

Deus não está morto, mas é cada vez mais esquecido pelos homens.

(veja mais aqui)

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